Conto A ERVILHA, de Angela Martins
A ERVILHA
Angela Martins
Há muito, muito tempo, eu ainda vivia numa vagem na horta do castelo da família real mais exigente do mundo. O príncipe estava em idade de se casar e procurava uma princesa “verdadeira”. Era o que todos diziam e eu ouvia tudo atentamente.
O rapaz viajou pelo mundo em busca de uma donzela perfeita para ele. Mas, por onde passou, nenhuma o agradou. Desiludido, voltou para casa.
Certa noite, despencou uma tempestade naquele reino. Raios riscaram o céu. Estrondos bravios anunciaram chuva forte, carregada por uma ventania. Ao ouvir batidas desesperadas na porta do palácio, o príncipe foi depressa abri-la.
Era uma moça, com roupas, cabelos e sapatos encharcados, dizendo ser uma princesa “de verdade”. Foi recebida com estranhamento, mas despertou especial interesse no rapaz. A rainha, muito desconfiada, pensou logo numa forma de confirmar a declaração da senhorita. Correu até a despensa, onde eu fora acomodada, pegou-me e colocou-me no estrado da cama de hóspedes. Depois, jogou uma pilha de colchões e colchas felpudas por cima de mim. Ali, a princesa dormiria. Que desaforo! Fiquei tão espremida e revoltada.
A princesa assustou-se com a altura da cama. Então, quando a rainha saiu, retirou todos os colchões e colchas extras. Foi assim que me encontrou e descobriu a armadilha. Dormiu em apenas um dos colchões.
Na manhã seguinte, ao levantar-se, a jovem colocou tudo de volta no lugar. Trajou-se com todo primor disponível e dirigiu-se ao salão nobre, onde todos a aguardavam.
Perguntada sobre sua noite de sono, apresentou-me e disse:
— Depois que encontrei a ervilha, dormi bem.
O príncipe já estava tão encantado com a princesa que não resistiu e até a pediu em casamento. Surpreendida, ela rejeitou prontamente. Revelou que não fora ao palácio em busca de marido e sim de proteção contra a tempestade.
Por fim, agradeceu a hospitalidade, despediu-se e seguiu seu caminho. Eu a acompanhei.
Publicado no livro "O vento e as esquinas: antologia", em 2024.

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